30.4.08

.da carta que nunca será entregue. (pt. final)

De: .m. - Para: .b.

Você sempre me disse que sua maior mágoa era eu nunca ter lutado mais por você. De não ter mudado pra sua cidade, de nunca ter ido ao Rio conhecer sua familia, de nunca ter tentado. E eu sei que você sempre foi o único homem que me amou, aquele amor de verdade. Que dói, que faz sofrer, que machuca, mas que ama. E eu nunca lutei com todas as minhas forças. Você sempre foi o único amigo que entendeu essa minha vontade de abraçar o mundo quando chega a madrugada. E o único que sempre entendeu também, depois de me ver ir dormindo meio que chorando, porque era impossível abraçar você quando dava vontade, que dirá o mundo.

Eu não sentia vontade de fazer nada. Não queria pensar em nada. Porque você era (é) complicado, mas sempre cortava as asas das minhas neuroses. Eu ficava imaginando que você sempre estava planejando algo, fazendo algo errado, comendo alguma outra por ai, esfriando os antigos-novos-de-sempre sentimentos. Eu pensava que tudo poderia desmoronar ... e lá vinha você, perfeito, perguntar porque eu estava com 'aquela vozinha assim'. Ai eu descobri que é porque você não é amor para leigo. E eu sempre estive acostumada com cachorradas, com homens safados, mentirosos, cruéis e que enjoam da gente fácil, que dão corda e depois vão embora. Mas você ... você não é assim.

Outro dia eu encontrei as fotos do nosso primeiro encontro, e elas estavam nomeadas como 'meu namorado mais lindo do mundo', ai me deu saudade. Outro dia também encontrei um texto de um sonho que tive com você, onde eu largava um namorado, para dançar com você. Dei risada e lembrei que em todos esses anos, mesmo eu nunca tendo lutado o quanto deveria, eu larguei por diversas vezes namorados, ficantes e afins pra 'dançar' a vida com você. Porque você é meu melhor companheiro de dança, mesmo sendo tímido e desajeitado. Depois encontrei uma foto 3x4 em que você está com os cabelos tingidos de loiro, típico de funkeiro do morro. Dei mais risada ainda. E ai lembrei que eu já dancei uns axés e usei calça bailarina. Pensei em como combinaríamos se tivéssemos nos conhecido nessa época. E me achei ridícula em pensar isso, mas senti uma coisa linda por dentro do peito.

Eu lembro que durante o nosso namoro, eu te desejava desde a pontinha dos dedos dos pés, passando por todas as veias, as artérias, o pulso que pulsava, pulsava-pulsava-pulsava e pulsava mais rápido. Eu era meio tarada, eu era uma bobona, eu era tão mocinha - em todos os sentidos da palavra. O meu dia inteiro não fazia sentido e nada do que eu fazia tinha a maior graça. Eu vegetava e fingia boa parte do dia. À noite, que eu sabia que falaria com você, eu despertava eufórica. Eu renascia só pra ter um pouquinho de você. Eu te desejava tanto Bruno, que doía, e isso não é uma metáfora. Doía mesmo, caralho. Doía em cantinhos do corpo que eu nem mesma sabia que existiam. Você arrancou os livros de teoria das minhas mãos, ergueu meu queixo com seus dedos e me fez olhar o Sol.

Eu não sei exatamente porque eu não me esforcei mais por você. E eu nunca vou me esquecer do dia em que você disse que queria casar comigo, porque assim você teria a certeza que eu seria o seu último primeiro sonho realizado. Talvez eu deveria ter me esforçado mais, quando você me deu meu primeiro livro de poesias do Vinícius de Moraes, entregue pelo sedex, claro. Ou quando apareceu aqui em São Paulo e me ligou quando já estava praticamente na rodoviária dizendo que estava me esperando, e eu achei que ia ficar muito brava quando visse você, mas não aguentei e lhe dei o mais gostoso dos beijos. Ou mesmo quando, já de saco cheio de lhe namorar, você disse que não desistiria de mim mesmo assim. Também não sei porque eu não lutei mais por você, quando estávamos dando o maior amasso no sofá, e você me disse a frase mais linda que eu já ouvi na minha vida 'eu sei que você não me ama tanto quanto eu te amo, mas deixa eu te olhar mesmo assim'.

Nos dias das suas visitas, os minutos só não me matavam porque eu os considerava como minutos a menos, instantes a menos para te ter por completo. Porque te abraçar trazia uma vontade de chorar inescrupulosa, bem vigarista mesmo. Uma sensação quente que se instala no fundo da garganta. Um medo doente daquilo não ser pra sempre. Parecia tudo tão certo, de uma perfeição tão matemática, nossos corpos juntos. Eu aprendi a amar suas imperfeições porque simplesmente meu espelho criara vida e eu enxerguei que eu não era especial porra nenhuma, na verdade eu era só mais uma mulher perdida entre tantas outras. Porque só quando desisti da perfeição, aceitando as linhas tortas do meu mundo, é que a encontrei.

E quando nós terminamos, eu achava que esperança era uma palavra ridícula, mas ai você aos poucos foi me mostrando qual era o seu verdadeiro significado. Não tinha nada a ver com a porra do futuro. Tinha a ver com aquele momento. Com aquele abraço quentinho que injetava ar para dentro dos meus pulmões e que me fazia ver que os verdadeiros sentimentos não têm nome. Era uma felicidade pura e explosiva, que parecia que iria inundar o mundo todo. Era uma alucinação confusa e nervosa. As cores desdobravam-se em tonalidades infindáveis. Era aquele pânico instantâneo. Aquela fúria que deslizava supersônica dentro do sangue. Era uma animalidade que me fazia pronta a morder qualquer coisa que tentasse me tirar de você. Mesma que essa coisa um dia, viesse de mim. Ou de ti.

Talvez eu devesse ter lutado mais por você, quando eu te pedi a única coisa que não se pede a alguém que ama a gente: 'segue sua vida, olha pra frente e não me espere - mas me faz companhia esta noite que eu tô sozinha, tá?'. E você fez. E você me ouvia no telefone atentamente e suspirando, se perguntando talvez porque raios fazia isso com você mesmo. Talvez porque mesmo sabendo que eu não amava mais tanto você, você continuava querendo apenas me escutar. E eu me nutria disso. Me aproveitava. Sugava seu amor para sobreviver um pouco em meio a falta de amor que eu recebia de todas as outras pessoas que diziam estar comigo. E depois desse dia, eu descobri o que é um homem de verdade. E se parecia insegura, desconfiada, difícil, pidona, psicótica, carente, ciumenta, exagerada (ou se pareço até hoje), é porque não queria te perder.

Hoje eu te liguei e você atendeu. Eu estava feliz de falar com você. Dizer que ia prestar concurso público pra Petrobrás, que estava disposta a mudar pro Rio, correr o risco de ser picada pelo mosquito da dengue, pra poder finalmente viver uma vida juntos. Mas antes que eu dissesse qualquer coisa, você me deu a notícia de que começou a namorar e que finalmente estava seguindo meus conselhos antigos. Claro que eu senti um ciúmes dolorido, um vazio imenso por dentro e uma falta absurda de você. Mas ainda assim, eu disfarcei, atuei e aguentei firme até o final da conversa. Porque eu sou forte. Lhe desejei felicidades, engoli seco quando disse que não perderíamos o contato e que seríamos amigos apartir de hoje. E você concordou. Nós desligamos, e eu chorei.

Tudo que há em mim hoje, têm um pouco de você. Seja nas minhas piadas sem graça, no meu jeito de falar, no meu jeito de andar ou até mesmo no meu jeito de dançar. Tudo é você. Minha personalidade é você. Quando eu berro Los Hermanos no metrô ou quando eu faço uma amiga feliz com alguma bobeira. Tudo é você. Quando eu coloco uma blusa menos decotada, ao invés da decotada. Ou quando eu fico em casa feliz com as minhas coisinhas. Tudo é você. Eu sou mais você do que fui qualquer homem que passou pela minha vida. E eu sempre amei infinitamente mais a sua companhia do que qualquer companhia do mundo, mesmo eu nunca tendo demonstrado isso o suficiente. Talvez assim você não precisaria duvidar tanto de mim. E, ainda assim, eu não lutei, não tentei e não me esforcei por completo, pra você.

Até hoje. Até essa noite. Em que você, pela primeira vez, falou comigo sem sentir nenhum remorso disso. Foi a primeira vez, em todos esse anos, que você simplesmente desligou. Sem dizer um 'eu te amo'. Como se eu fosse só mais uma coisa da sua vida cheia de coisas. Hoje, pela primeira vez, quem usou alguém para não sentir dor ou saudade, foi você. Foi a primeira vez que você deixou eu escutar mais, do que falar. Mesmo você não me amando tanto assim.

E foi por isso, porque você deixou de ser o menino que me amava e passou a ser mais um que desistiu de mim, que você, assim como todos os outros, mereceu que eu não lutasse tanto assim por você.



'Poderia até pensar que foi tudo sonho ... ponho meu sapato novo e vou passear. Sozinha, como der, eu vou até, a beira. Besteira qualquer, nem choro mais ... Só levo a saudade moreno. É tudo que vale a pena'

19.4.08

.lição de casa, talvez pra vida.

Tenho que assumir que nunca fui muito de listas. Aquelas de resoluções de começo de ano então, nunca foram levadas muito a sério. Na verdade mesmo, no fundo, eu sinto que nelas há uma cobrança constante ... e isso, assumo, eu não aguento!
Parece que são segundos pais, segundos amigos, segundas 'Milas' me dizendo: 'eai, não vai entrar na academia?', 'e a carta de motorista ... quando sai'. Como quase nunca faço o que pretendia fazer, não me perguntem o porquê, eu costumo rasgá-las, picotá-las, botar fogo e sair me xingando pelo resto da semana. Até porque eu nunca soube mesmo o que quero fazer do dia, da semana, da vida. Doidera minha!
Mas como o Tera pediu com carinho e emoção, e também disse que tem um 'carisma ininarrável' por mim, então eu resolvi tentar ...

Oito coisas que eu gostaria de fazer antes de morrer:

1° - Pular de pára-quedas.
Vocês já viram as imagens, cenas, reportagens sobre isso?! Cara, deve ser uma sensação incrível! Aquele tum-tum-tum no coração, a boca seca, a tremedeira inicial! Nossa ... só de escrever, fico toda arrepiada! Quero poder sentir aquela sensação de ver o filme da vida, passando em minha cabeça em segundos!

2° - Tirar minha carta de motorista.
Não é nem pra dirigir de fato, porque eu não tenho lá muita paciência pra isso. Acho maçante, doloroso, poluente e um puta saco dirigir, mas ao mesmo tempo dá uma sensação de liberdade ter aquele papelzinho com seu rosto, rg, cpf e tipo:B na sua mão. Gosto mesmo é de ser co-piloto. Mas quero tirar somente pelo simples 'ter'.

3° - Entrar pra USP.
Hahahahahahahhahaaha. Tá, eu sei ... mas eu queria, muito!
A Faculdade quase sempre tá em greve, quase nunca tem aula, o esquema de trote são bizarros, mas é a USP! E desde de pequenina tinha esse sonho besta. Mas nunca comentei com ninguém, porque eu sempre soube que nunca passaria na FUVEST! Dito e feito.

4° - Me mudar pra qualquer lugar onde ninguém soubesse quem sou eu.
Bom, eu tenho crises e sendo elas existenciais ou não, continuam sendo crises, e dessas crises sempre surgem vontades novas e uma delas é essa. Sumir. Me mudar sem avisar, sem despedidas. Sem beijo e nem tchau! Porque às vezes eu canso, enjôo e preciso de renovações. Na verdade, sempre tive muita inveja dessas pessoas nômades, que pulam de galho em galho, conhecendo o mundo todo! (Acho que de todos os itens que eu 'gostaria' esse é o mais provável que eu coloque no presente!)

5° - Plantar uma árvore.
Daquele provérbio chinês: 'Todo Homem deve durante a sua vida: Plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro.' - Eu fico com a primeira opção. Talvez seja para poder compensar as duas vezes que minhas atitudes, de tentar salvar as árvores aqui da rua, foram falhas! Eu gritei, esperniei, xinguei e ameacei chamar a polícia, mas elas não foram suficientes e ai eu chorei!

6° - Amenizar o medo que sinto.
Diz uma grande amiga minha que, todas as dores e alergias que tenho são psicossomáticas. Cheguei a conclusão que ela tem razão. Penso eu que se eu mudasse um pouquinho em relação a esses sentimentos eles seriam amenizado e as coisas seriam um pouco mais fáceis e tudo ia fluir normalmente.

7° - Mudar a vida de uma pessoa.
Eu quero ajudar. Ser missionária. Quero mudar o mundo. Mudar as pessoas. Fazer elas enxergarem um mundo melhor. Nada muito John Lennon. Só o real mesmo. Entende?! Quero poder ver sorriso na cara delas e sentir o coração bater forte por isso. Quero aquecer o coração com atitudes boas e corretas.

8° - Me tornar quem eu sou.
Porque pra todas essas vontades sairem do pensamento eu preciso me conhecer. Desejar o necessário pra depois amar o desejado. Tenho que me aceitar do jeito que sou, com meus defeitos, minhas qualidades, meu jeito, meu ser. Enfim ... isso é terapia pra anos.

Abaixo do oitavo lugar, há várias mil outras coisas que gostaria de fazer antes de morrer, mas essas talvez já estejam esquecidas dentro do baú embaixo da cama. Estão lá, criando pó.
Bom, a ordem não altera as vontades. Nenhuma é preferível por estar em primeiro ou quinto lugar. E caso essas vontades lhes parecerem vontades bestas, que se fodam. São minhas por isto, respeitem!
No fundo mesmo, acho que todas as nossas listas são bem parecidas. Li a do
Tera, a da Dora e na lista deles há muitos números que são minhas vontades também, e já li de muitas outras pessoas por ai e também vi alguns desejos parecidos. No fundo mesmo todo mundo quer: sorte no amor, felicidade em família, um trabalho que lhe dê prazer e como resume bem a canção, 'muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender.' Mas o que fazemos pra que isso aconteça de verdade e para que a vida realmente signifique desejos realizados?! Se formos bem sinceros, nada.
Porque será então, que temos tanta resistência em fazer mudanças? Em correr atrás? O que, afinal, no segura em direção a uma vida melhor? Talvez seja das respostas dessas perguntas que poderá surgir sim, um item da lista realizado. Enfim, boa sorte a todos!

Lição de casa pro
Lukitchas , pra Babi e pro Leo! Gostaria de saber quais seriam os itens das listas de vocês. Mas se ninguém quiser postar isso, eu aceito a confissão ao pé do meu ouvido, num dia qualquer, okeyz?!

Um beijo.



'Os medos não brotam das trevas; pelo contrário, eles são como estrelas: estão sempre ali, mas obscurecidos pelo clarão da luz do dia.'

13.4.08

.por vezes, eu uso às vezes.


"eu estive fora uns dias numa onda diferente ... e provei tantas frutas, que te deixariam tonto ..."


Hoje eu pensei muito sobre tudo, sobre todos, sobre o mundo. Cheguei a conclusão que o 'às vezes' é um conjunto de palavras ótimo e muito usado por mim, por você, por nós ... é engraçado. Porque dessa maneira eu concluo que às vezes é bom sumir e em algumas outras vezes é bom ficar calada e deixar as coisas correrem paralelas. E muitas vezes é importantíssimo escutar o toque do celular no meio da noite. Tem gente que não gosta ... por mim ele poderia tocar a cada meia-hora.
Há dias também em que tapas no rosto e lágrimas escassas valem mais do que filme e sorvete em dias de chuva. E noites em que as lágrimas vem como enchurradas devastadoras e o sorriso é esquecido, como sonho que deixamos dentro do travesseiro.
De vez em quando não escutar o que não queremos é perfeito, o problema é escutar o que queremos de vez em quando. Houve um tempo que pra mim, o cheiro da pele não mudava e, quando mudou ... mudou. E agora têm aqueles dias em que o cheiro volta e dá saudade do filme e do sorvete.
Às vezes é bom conversar, outras vezes é bom xingar, depois pedir desculpas e não precisar conversar, assim, simples, do jeito que tem que ser. Muitas vezes me bate uma solidão estranha, e de forma tão estranha ela também vai embora. Ah ... e há dias em que é bom ir embora, sem tchau, sem beijo. É estranho e às vezes, necessário. Pra mim, muito necessário.
De vez em quando o nosso quarto fica meio escuro e a gente chora, o problema nesse caso é quando choramos de vez em quando sem o quarto. E isso dói, mas é uma dor suportável e importante. Nunca contei, mas houve um tempo na minha vida em que os espelhos nem importavam tanto, e quando começaram a importar, ficou ruim. E agora têm aqueles dias em que o espelho me olha de volta e dá saudade da importância que ele não causava. Coisas da vida.
Às vezes é bom apagar os velhos momentos, as velhas coisas, os arrependimentos ... outras vezes é bom abrir os cadernos e reler as velhas marcas de lápis, os escritos bobos, as cartas que nunca foram entregues, aquele sentimento puro que está lá. Muitas vezes é triste não ter ninguém pra conversar.
Há dias em que é melhor não acordar e (ou) sonhar com o dia em que seria bom acordar. E dias que o edredon nos chama pra dentro dele, mas o frio nos chama pra fora.
De vez em quando não ser a acompanhante desejada machuca muito. O problema é não ser desejada como acompanhante de vez em quando. Há um tempo atrás eu separava as músicas pelas pessoas que elas lembravam, e, quando isso acabou, perdeu a graça.
Às vezes é bom esquecer. Outras vezes é bom lembrar do que foi bom. Tem dias que odiamos algumas pessoas, no outro desejamos somente seu abraço. Muitas vezes a gente não entende o choro das outras pessoas. E nem elas o nosso.
Há dias em que a gente some e os outros lembram de você.
De vez em quando tudo faz lembrar o que seria muito, muito melhor esquecer. O problema é esquecer de tudo que seria muito, muito bom lembrar de vez em quando.
Houve um tempo em que pensar no recomeço seria pecado, e, quando não recomeçou, foi pecado mesmo. Um minuto, um dia, um mês ou mais. Não importa o tempo que se demora pra enxergar e aceitar certas coisas, o que importa mesmo é não sentir mais falta de andar de mãos dadas às vezes.



"e nem te falei ... que eu te procurei pra me confessar. que eu chorava de amor, e não porque sofria ... mas você chegou, já era dia, e não estava sozinho ... eu estive fora uns dias. eu te odiei uns dias. eu quis te matar ..."

8.4.08

.das cartas que nunca foram entregues. (pt.1)

'De .m. - Para .l.

Depois de ter decifrado seus olhos, na noite anterior, me 'dizendo' que eu poderia ser 'a mulher da sua vida', eu percebi novamente, naquela outra noite o que querias dizer. E assumo que isso é deveras profundo. Pensei que, para me dizer essas coisas, assim de repente, deve tratar-se de um homem de verdade e não de um moleque qualquer, acostumado a dizer bobeiras sem muito pensar. Mas eu nem fiquei chocada. Você mal sabia que eu já havia pensado nisso muito antes. Que desde os dias que se passaram, eu sabia disso tudo. Seus olhos haviam me contado. Só não consegui dizer e guardei para mim.
Pois é cedo, cedo, cedo demais, pensei, para dizer qualquer coisa desse tipo. Achei que poderia assustá-lo, que você poderia fugir, caso uma garota insana que conhece apenas a 'três dias' chega e, sem mais, larga uma dessas. Amar assim, sem pensar, questionar, me preocupar. Pensei que isso era muita loucura para uma pessoa só, mas me impedi de dividir.
Parei pra pensar e conversar com meus botões: 'Não, isso não deve ser normal. Mas quem disse que eu sou normal?! Vai, pára com essas coisas, Mila, não pense isso mais. Esqueça essa idéia bizarra. Não existe tempo suficiente para que se pense isso, fique na sua, acabe com esses imediatismos ... coisas afins.'
Estou enlouquecendo! - Mas o Lukitchas, talvez diria: 'Iiihh, isso já faz tempo!'
Fato é que nada mais tem sido como antes. E esses dias que se seguiram são os mais mágicos já vividos por mim em termos de sensações e sentimentos nunca antes visitados. Em questão de uma semana sentimo-nos com uma intimidade absurda, aquela coisa clichê de acharmos que já nos conhecíamos há tempos, de que nos reencontramos, de que 'lemos o manual um do outro', por que gostamos das mesmas coisas e não conseguimos mais pensar em nada além de nós.

Você não me pergunta [ainda bem] mas sim, eu imagino a gente casado e totalmente fora desse 'estilo de vida' que você acha que eu levo. Imagino isso com uma refrescância que nunca senti.
Você possui uma verdade que nunca vi em nenhum homem e acho que um pouco do que você é, é o que quero ser [quando crescer]. Tenho certeza que sim. '


'acho que esse é o tal do amor'

1.4.08

.das coisas que não sei mais.

Já não sei mais escrever. Nem esperar.
Sinceramente, nesses últimos dias não quero mais nada.
Eu tô me segurando pra não chorar, porque eu ando muito pouca para tanta raiva quente, ando pouca para tanta irritação. A vida me irrita e se você não sabe, a irritação é a resposta imediata, compreensível de: 'eu tô triste'. Triste, porque eu não sei esperar. Na verdade eu nem sei o que estou esperando. Deve ser por uma epifania, por um momento estrondoso em que tudo afunde e só se ergua o chão debaixo dos meus pés.
Eu não sei mais fingir sorrisos, nem que estou me divertindo e eu me divertia muito fingindo que estava me divertindo. Mas agora não basta, as pessoas são rasas e eu só demonstro minha felicidade quando vale a pena ser demonstrada.
A minha cama é muito pequena e eu mal posso me mexer. Eu ando grande pra tão pouco.
Eu prometi que não ia chorar mais. Pra deixar claro, eu não amo nada disso, eu odeio tudo disso. Mas antes não odiava porque eu não sabia que existia uma saída. Hoje sei que o mundo pode ser lindo e que a vida pode valer a pena, mas não hoje.
Gastei dinheiro, saliva, disse e ouvi tanta coisa, desisti de tanta coisa, consegui tanta coisa e o que sempre sobra é a pergunta: 'e agora o quê?'. Não importa quantos mundos minhas mãos agarrem, eu percebi que sempre estou à procura de uma mudança que nunca vem.
Que se foda a filosofia, que se foda todo o resto, eu não sou ambiciosa porra nenhuma e que ninguém venha me falar de futuro. O futuro não importa. Cansei de viver para o futuro. Eu planejei quase minha vida inteira e me deparei com esse futuro aqui, e adivinha só?! O futuro é agora e eu tô com um gosto amargo na boca.
Tô cansada dessa sensação de acordar e não ser colorido. É tudo a mesma bosta. Sempre a mesma bosta. Cansei de acordar cedo, ver queo dia rende, chegar à noite cansada e insatisfeita. Cansei de acordar tarde, meio dia desperdiçado e a outra metade mais desperdiçada ainda.
Cansei desse cheiro de misto de mofo, cigarro e vômito, desse setlist que não muda, dessas pessoas idiotas que te olham como se você fosse um pedaço de carne, das suas conversas vazias e da sua necessidade de se encaixar numa forminha perfeita, num nicho onde só constam seus amigos e seus iguais.
Cansei dessa gente bêbada, vindo em minha direção, dessa necessidade de se encharcar de álcool para ter alguma diversão, cansei da fumaça seca do Malboro e também de todos os outros cigarros. Cansei dessa cidade e dos seus feixes de luz que não passam de propaganda, cansei dos seus arredores chiquérrimos, da sua poluição e da sua mesquinhez de se auto-intitular 'a locomotiva do Brasil'. Foda-se. Seríamos um trem-bala, e não uma locomotiva, se significássemos alguma coisa nessa merda, e não, eu não vou me mudar daqui, eu sou bairrista, nasci aqui e posso falar mal ou bem, o quanto eu quiser.Cansei dos vestiluares, dos vestibulandos e universitários. Bando de gente que só se importa com os botecos a cada esquina da faculdade.
Tomei um porre de capuccino e pela primeira vez na vida enxerguei que não amo essas pessoas o quanto pensava ou o quanto deveria. Talvez eu não deva nada. Cansei de procurar significações em todas as esquinas e becos.
Tomei um porre de capuccino às altas horas da madrugada. E se Deus existe, que ele me proteja dessa corja de vagabundas e assassinos que, como eu, vagam nas ruas à procura de alguma significação - pra si, para tudo.
Tomei mais um porre de capuccino e pela primeira vez na vida senti que queria ter um mundo só meu, ou me mudar - sem previsão de volta - para um país onde ninguém me conhecesse ou falasse minha língua.
Enfim, dar uma nova página um a minha história. Começar tudo de novo, sem cordas ou lembranças.


(texto que sempre calha-me muito bem, nos dias que sinto-me assim ... )