30.4.08

.da carta que nunca será entregue. (pt. final)

De: .m. - Para: .b.

Você sempre me disse que sua maior mágoa era eu nunca ter lutado mais por você. De não ter mudado pra sua cidade, de nunca ter ido ao Rio conhecer sua familia, de nunca ter tentado. E eu sei que você sempre foi o único homem que me amou, aquele amor de verdade. Que dói, que faz sofrer, que machuca, mas que ama. E eu nunca lutei com todas as minhas forças. Você sempre foi o único amigo que entendeu essa minha vontade de abraçar o mundo quando chega a madrugada. E o único que sempre entendeu também, depois de me ver ir dormindo meio que chorando, porque era impossível abraçar você quando dava vontade, que dirá o mundo.

Eu não sentia vontade de fazer nada. Não queria pensar em nada. Porque você era (é) complicado, mas sempre cortava as asas das minhas neuroses. Eu ficava imaginando que você sempre estava planejando algo, fazendo algo errado, comendo alguma outra por ai, esfriando os antigos-novos-de-sempre sentimentos. Eu pensava que tudo poderia desmoronar ... e lá vinha você, perfeito, perguntar porque eu estava com 'aquela vozinha assim'. Ai eu descobri que é porque você não é amor para leigo. E eu sempre estive acostumada com cachorradas, com homens safados, mentirosos, cruéis e que enjoam da gente fácil, que dão corda e depois vão embora. Mas você ... você não é assim.

Outro dia eu encontrei as fotos do nosso primeiro encontro, e elas estavam nomeadas como 'meu namorado mais lindo do mundo', ai me deu saudade. Outro dia também encontrei um texto de um sonho que tive com você, onde eu largava um namorado, para dançar com você. Dei risada e lembrei que em todos esses anos, mesmo eu nunca tendo lutado o quanto deveria, eu larguei por diversas vezes namorados, ficantes e afins pra 'dançar' a vida com você. Porque você é meu melhor companheiro de dança, mesmo sendo tímido e desajeitado. Depois encontrei uma foto 3x4 em que você está com os cabelos tingidos de loiro, típico de funkeiro do morro. Dei mais risada ainda. E ai lembrei que eu já dancei uns axés e usei calça bailarina. Pensei em como combinaríamos se tivéssemos nos conhecido nessa época. E me achei ridícula em pensar isso, mas senti uma coisa linda por dentro do peito.

Eu lembro que durante o nosso namoro, eu te desejava desde a pontinha dos dedos dos pés, passando por todas as veias, as artérias, o pulso que pulsava, pulsava-pulsava-pulsava e pulsava mais rápido. Eu era meio tarada, eu era uma bobona, eu era tão mocinha - em todos os sentidos da palavra. O meu dia inteiro não fazia sentido e nada do que eu fazia tinha a maior graça. Eu vegetava e fingia boa parte do dia. À noite, que eu sabia que falaria com você, eu despertava eufórica. Eu renascia só pra ter um pouquinho de você. Eu te desejava tanto Bruno, que doía, e isso não é uma metáfora. Doía mesmo, caralho. Doía em cantinhos do corpo que eu nem mesma sabia que existiam. Você arrancou os livros de teoria das minhas mãos, ergueu meu queixo com seus dedos e me fez olhar o Sol.

Eu não sei exatamente porque eu não me esforcei mais por você. E eu nunca vou me esquecer do dia em que você disse que queria casar comigo, porque assim você teria a certeza que eu seria o seu último primeiro sonho realizado. Talvez eu deveria ter me esforçado mais, quando você me deu meu primeiro livro de poesias do Vinícius de Moraes, entregue pelo sedex, claro. Ou quando apareceu aqui em São Paulo e me ligou quando já estava praticamente na rodoviária dizendo que estava me esperando, e eu achei que ia ficar muito brava quando visse você, mas não aguentei e lhe dei o mais gostoso dos beijos. Ou mesmo quando, já de saco cheio de lhe namorar, você disse que não desistiria de mim mesmo assim. Também não sei porque eu não lutei mais por você, quando estávamos dando o maior amasso no sofá, e você me disse a frase mais linda que eu já ouvi na minha vida 'eu sei que você não me ama tanto quanto eu te amo, mas deixa eu te olhar mesmo assim'.

Nos dias das suas visitas, os minutos só não me matavam porque eu os considerava como minutos a menos, instantes a menos para te ter por completo. Porque te abraçar trazia uma vontade de chorar inescrupulosa, bem vigarista mesmo. Uma sensação quente que se instala no fundo da garganta. Um medo doente daquilo não ser pra sempre. Parecia tudo tão certo, de uma perfeição tão matemática, nossos corpos juntos. Eu aprendi a amar suas imperfeições porque simplesmente meu espelho criara vida e eu enxerguei que eu não era especial porra nenhuma, na verdade eu era só mais uma mulher perdida entre tantas outras. Porque só quando desisti da perfeição, aceitando as linhas tortas do meu mundo, é que a encontrei.

E quando nós terminamos, eu achava que esperança era uma palavra ridícula, mas ai você aos poucos foi me mostrando qual era o seu verdadeiro significado. Não tinha nada a ver com a porra do futuro. Tinha a ver com aquele momento. Com aquele abraço quentinho que injetava ar para dentro dos meus pulmões e que me fazia ver que os verdadeiros sentimentos não têm nome. Era uma felicidade pura e explosiva, que parecia que iria inundar o mundo todo. Era uma alucinação confusa e nervosa. As cores desdobravam-se em tonalidades infindáveis. Era aquele pânico instantâneo. Aquela fúria que deslizava supersônica dentro do sangue. Era uma animalidade que me fazia pronta a morder qualquer coisa que tentasse me tirar de você. Mesma que essa coisa um dia, viesse de mim. Ou de ti.

Talvez eu devesse ter lutado mais por você, quando eu te pedi a única coisa que não se pede a alguém que ama a gente: 'segue sua vida, olha pra frente e não me espere - mas me faz companhia esta noite que eu tô sozinha, tá?'. E você fez. E você me ouvia no telefone atentamente e suspirando, se perguntando talvez porque raios fazia isso com você mesmo. Talvez porque mesmo sabendo que eu não amava mais tanto você, você continuava querendo apenas me escutar. E eu me nutria disso. Me aproveitava. Sugava seu amor para sobreviver um pouco em meio a falta de amor que eu recebia de todas as outras pessoas que diziam estar comigo. E depois desse dia, eu descobri o que é um homem de verdade. E se parecia insegura, desconfiada, difícil, pidona, psicótica, carente, ciumenta, exagerada (ou se pareço até hoje), é porque não queria te perder.

Hoje eu te liguei e você atendeu. Eu estava feliz de falar com você. Dizer que ia prestar concurso público pra Petrobrás, que estava disposta a mudar pro Rio, correr o risco de ser picada pelo mosquito da dengue, pra poder finalmente viver uma vida juntos. Mas antes que eu dissesse qualquer coisa, você me deu a notícia de que começou a namorar e que finalmente estava seguindo meus conselhos antigos. Claro que eu senti um ciúmes dolorido, um vazio imenso por dentro e uma falta absurda de você. Mas ainda assim, eu disfarcei, atuei e aguentei firme até o final da conversa. Porque eu sou forte. Lhe desejei felicidades, engoli seco quando disse que não perderíamos o contato e que seríamos amigos apartir de hoje. E você concordou. Nós desligamos, e eu chorei.

Tudo que há em mim hoje, têm um pouco de você. Seja nas minhas piadas sem graça, no meu jeito de falar, no meu jeito de andar ou até mesmo no meu jeito de dançar. Tudo é você. Minha personalidade é você. Quando eu berro Los Hermanos no metrô ou quando eu faço uma amiga feliz com alguma bobeira. Tudo é você. Quando eu coloco uma blusa menos decotada, ao invés da decotada. Ou quando eu fico em casa feliz com as minhas coisinhas. Tudo é você. Eu sou mais você do que fui qualquer homem que passou pela minha vida. E eu sempre amei infinitamente mais a sua companhia do que qualquer companhia do mundo, mesmo eu nunca tendo demonstrado isso o suficiente. Talvez assim você não precisaria duvidar tanto de mim. E, ainda assim, eu não lutei, não tentei e não me esforcei por completo, pra você.

Até hoje. Até essa noite. Em que você, pela primeira vez, falou comigo sem sentir nenhum remorso disso. Foi a primeira vez, em todos esse anos, que você simplesmente desligou. Sem dizer um 'eu te amo'. Como se eu fosse só mais uma coisa da sua vida cheia de coisas. Hoje, pela primeira vez, quem usou alguém para não sentir dor ou saudade, foi você. Foi a primeira vez que você deixou eu escutar mais, do que falar. Mesmo você não me amando tanto assim.

E foi por isso, porque você deixou de ser o menino que me amava e passou a ser mais um que desistiu de mim, que você, assim como todos os outros, mereceu que eu não lutasse tanto assim por você.



'Poderia até pensar que foi tudo sonho ... ponho meu sapato novo e vou passear. Sozinha, como der, eu vou até, a beira. Besteira qualquer, nem choro mais ... Só levo a saudade moreno. É tudo que vale a pena'

2 comentários:

disse...

Engraçado como eu preciso de um tempo depois de ler seus posts.
Eu li esse aqui ontem. E só consgui comentar sobre, hoje.
Vem em mim uma nítida sensação de se silêncio depois dele. De precisar de um silêncio depois ele.
Sabe aquela sensação de "faltar palavras"? Aquilo que se sente quando termina um filme muito bom, um filme que choramos bastante por ter visto de nós mesmo diante dos nossos próprios olhos? Então.. é essa sensação.
É uma sensação que se dá depois de ver uma peça de teatro e chorar junto com uma pessoa especial ali no canto, ao lado de uma janela... hando as luzes e a vida que essa cidade tão bonita tem.
Aquele silêncio cálido e altamente ensurdecedor.
Aquele silêncio que grita significado.
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fabio disse...

Nooos .
poucas palavras pra tudo aquilo que euu acabei de ler atentatemntee agora ,
uma historiaaa interessantee .
e com um aprendizado forti .
Nessa vida agente passa e vai passar por muitas coisas , me fes lembrar que eu já estive muito no seu lugar e muito no lugar do ''funkero do morro ''.
c bem que nao uzavaa calça bailarina maaiiiss , em certos pontoos como no '' amor '' .
é fhoodá . agente passar essas coisas .mais o que vale é o que nós aprendemoss coisas boas e ruins que agente leva pra vida toda .
bom outroo dia eu leio outra historia ,
poooxaa . aproveitandoo , queria dizzer que agente nao tem amizade ainda e essas coisas , agente nao c conheece tao bem assiim ainda . Maais o pouco de vc que me mostroou eu gostei demaiss , agente nao escolhe nossas amizades mais saibá que euu sou diferentee . e gostoo de lutar pelo que eu quero , e vc é uam pessoa fantastica . deve ter lá sesu defeitoos mais quem nao tem né .
SONO ,
vou durmiir , beijao

ass ; faah