29.10.08

.não é a vida como está, e sim as coisas como são.

A vida é uma adaptação hedonista. Feita daqueles momentos de calmaria que se segue a um evento alegre. Os eventos alegres parecem fotos velhas, vão perdendo a cor. Sumindo. É quando chega o momento de colocá-los naquela caixa de sapato e enfiar embaixo da cama. Deixá-los ali, esquecidos, pegando poeira. Criando vínculos. Sobrando saudade.

Essas palavras não são ditas por causa de uma (in)felicidade eterna, nem utópica, que seja logo dito. Mas de fato, buscando companhia, olho-me no espelho e por ironia, nada vejo. Só sinto. Sinto a brisa passar rápido, cortando minha boca em pedacinhos que ardem quando um sorriso escapa. Sinto os sapatos apertarem. Sinta na cabeça um martelo bater forte lá dentro, incrustado. Nenhuma massagem resolve, nenhuma pílula faz passar.

É estranho quando me pego por aí, a observar os outros e vejo todos com um propósito. Eu sem rumo, rumando ao morno, enquanto o restante tem ou aparenta ter 'algo', mesmo que esse seja trivial. Sinto as pessoas depositando sua fé em mim. Seus sonhos. Suas palavras, que a mim soam como uma terapia de otimismo. Eu já estou cansada de terapia. Na real, já tô cansada de muita coisa. Puta que o pariu ... eu sempre digo isso. Acho então que caberia melhor dizer que, eu estou cansada de dizer que estou cansada. rs

Dentro de mim bate um coração (des)acelerado. Que acelera em busca de coisas que façam ele bater cada vez mais rápido, não tão rápido a ponto de explodir, (dessa fase melancólica- depressiva eu já passei) mas é por um acelerar de satisfação para comigo.

Eu ando pelas ruas sempre em busca de algo. Seja ela uma nova cidade, um novo país, um novo curso, uma faculdade, uma nova casa, muitas vezes anseio por uma nova Mila. Nada resiste à relidade do metrô cheio, das horas perdidas para chegar ao meu trabalho, da frustração de me dedicar a algo que até gosto, mas que sei que não faço bem. Tentei um curso novo, optei por uma vida nova, me senti plena e feliz ... por pouco tempo. A força que faz eu levantar a bunda da cadeira do meu trabalho e ir pro curso, sai do bolso. Bolso furado. Lá eu aprendo, supero dificuldades e trago junto a mim um certo tipo de satisfação, mas ele não passa de um 'legal', quando me perguntam o que estou achando. 

Talvez as pessoas saibam tanto o quanto eu espero, o quanto eu quero, o quanto eu preciso de uma mudança na minha vida, que qualquer coisa que eu faça que saia da rotininha safada que eu tenho, faz com que elas depositem tanto essa esperança de realização, em mim . A culpa não está nas pessoas. A culpa está em mim, porque sou eu a pessoa mais interessada nessa mudança. Essas pessoas que me cercam e que acreditam tanto em mim ou nesse 'potencial' que dizem enxergar, as vezes ao invés de me ajudarem acabam complicando mais ainda. É engraçado, eu sei, mas rola um medo enorme de decepcioná-las. E eu deveria tocar o foda-se. Não dar a mínima pra esse medo bobo, ou a esses medos bobos, mas eles são como fantasmas, surgem sem nenhuma explicação. 

Você já percebeu como as crianças fazem previsões absurdas de como será a vida delas quando elas tiverem 25 anos?! Elas estarão casadas, terão filhos, um emprego de astronauta ... tudo totalmente dentro do esperado. Mal sabem elas que chega um ponto em que não se espera muita coisa. Só a obrigação de fazer o que é possível e pronto. E isso é o que eu tenho feito praticamente a minha vida toda. 

Eu tenho uma família maravilhosa, um namorado incrível, amigos necessários, um emprego dos deuses, um Deus que me dá força pra levantar todos os dias, uma saúde que eu saiba, ótima, mas aí eu me pergunto: e eu?! E essa busca egocêntrica e bizarra por um bem-estar meu. Próprio. No qual eu me sinta feliz por ser quem eu sou, onde está?! Onde eu me escondo?! Onde eu existo?! 

 

Eu me falto. Eu me perco. Eu me busco. Eu não me acho. 

 

A nossa vida é feita de cliques. Dizem que eles aparecem nos momentos certos. É aquela certeza de vida, de propósito, da qual nascemos para viver e fazer, mas quanto mais o tempo passa vejo que  a mim só restam restos de coisas. É disso que tenho vivido o tempo todo: esperando a conclusão  do atual ciclo para começar outro que eu não faço idéia de como será, a única coisa que eu espero dele é que não seja nada tão agradável. 

Minha vida é feita de momentos. Viver pra mim é seguir fazendo um monte de merda que eu sei que me fazem mal, mas mesmo assim eu continuo fazendo. Eu tenho apreço pelo pior. 

Todo dia eu tento engolir uma sensação parada na garganta, é o gosto de precisar fazer tudo diferente. Ou como quando você acorda e de repente vê que não precisa mudar tudo, porque as poucas mudanças, aos poucos vão melhorandos as coisas. Do jeito que foram feitas, e não da maneira que sempre foram. Mas perceba, sempre há a tal mudança. De um jeito ou de outro ela há. Ela permanece. Ela existe.

Eu ouço, eu leio, eu vejo, tudo acaba quando param de olhar pra dentro. Mas se paro, o interior já não faz mais sentido, acaba que não me diz nada. Há muito aqui dentro deste peito que bate forte, acelerado. É confuso, mas bate. 

No final, a vontade me sobe a cabeça, pego meu belo vestido, revisto de um belo sorriso e saio pelas ruas, respirando aliviada. Eu, essa menina angustiada, transformei a dor em idéia. Assim ela deixou de existir. Mesmo assim, caminhando  por aí, a vontade de repentinamente promover uma mudancinha geral me persegue. Eu sei que posso, mas talvez não precise. 

 

Só mais seis meses.

3 comentários:

Tatiana Pinheiro. disse...

"Eu tenho uma família maravilhosa, um namorado incrível, amigos necessários, um emprego dos deuses, um Deus que me dá força pra levantar todos os dias, uma saúde que eu saiba, ótima, mas aí eu me pergunto: e eu?! E essa busca egocêntrica e bizarra por um bem-estar meu. Próprio. No qual eu me sinta feliz por ser quem eu sou, onde está?! Onde eu me escondo?! Onde eu existo?!"


Com tudo tão bem, fica difícil mesmo. O que importa é a busca, my dear. Não as conquistas. Você tem conquistas demais!
Mas falando sério, me senti assim durante muito tempo...não sei como entrei, não sei como saí. Fiz todas as terapias possíveis, todos os seguimentos, tomei todos os remédios e sobretudo estava cansada de lutar. Parei de lutar contra. Mas saí, sem aviso prévio. Depois de anos, sem mais nem menos. Acho que foi quando eu desisti. Não sei.
Espero ter ajudado! :)

;*

Luiz Gustavo ( Guga ) disse...

pow gostei de suas palavras milena!! mais parecem mártires de uma vida de mágoas!!
mais vc escreve muito bem.. colocar as palavras nos lugares corretos !! mto legal!! parabéns e tente naum se martiirizar tanto!!
pois na vida há sempre uma saída!!

teraslife disse...

Nossa agora que li seu post me identifiquei. Estou nessa fase também.
Não que eu diga: Nossa consegui tudo que eu queria.
Mas vejo estou vendo tudo com uma grande indiferença e me incomodo com algumas coisas. No fim parece que estamos andando em um "carrossel".

Beijão!