23.1.09

.sobre as mulheres.

Já faz alguns dias que ando dedilhando na mesma tecla sobre um assunto: MULHERES. Sim, sobre eu, sobre minhas amigas, sobre todas nós. E eu sei que devo estar ficando bem chata e insistente com isso, mas é que, sempre aparece uma bizarrice pior:

Este é um post de um blog da Folha para estudantes e interessados em jornalismo.

Ok, eu não vou discorrer sobre como a Ana, editora de treinamento da Folha, endossou a mensagem sexista do anúncio ao escolher “mulheres complicam” como título. Isso não é nada perto dos comentários do post, feitos por … mulheres. Elas disseram ”adorar” o anúncio. Eis uma pérola:
[Silvia Dutra] Maravilha, é isso mesmo. Por essas e por outras (muitas outras) que eu adoro os homens, essas criaturas simples e óbvias.

Aham. E o seu sexo mesmo, qual é?

Ou ainda:
[Priscila] [BH] É bom mesmo. Explicou muita coisa com muito pouco e, ainda por cima, mostrou umas verdades rsrs. O do banheiro é o melhor.

Explicou o quê? O quanto fomos rebaixadas a uma idiotice?

Me desculpem mas eu fico, sim, revoltada com essas coisas. Que porra de mundo é esse, em que um anúncio te chama de frívola, burra e amaldiçoada por Deus e você o “adora”, achando que é tudo verdade? E não me venham com, 'ah, foi apenas uma brincadeirinha', porque, sim, o anúncio diz isso mesmo.
Pensa comigo:
1) complicar as coisas em vez de facilitar é burrice.
2) Passar horas se preocupando com a roupa é uma atitude considerada fútil.
3)Para fechar com chave de ouro, o slogan é “thank god you’re a man”. Se você deve agradecer a Deus por ser homem, ser mulher, então, só pode ser uma maldição.

Agradeça a Deus porque Deus o livrou de ser mulher! Isso seria hor-rí-vel! Ninguém quer ser burro e fútil como elas (nem elas mesmas, como o comentário da Silvia atesta).
É tão absurdo e tão óbvio, mas parece que nunca cessa a necessidade de repetir: não, nós não somos assim. E, se há algumas que são, cabe questionar se elas não são assim porque, desde pequenas, ouvem que é assim que as mulheres se comportam.
Ora, embora passem horas escolhendo a roupa, muitas mulheres resolvem equações em dois palitos. Muitas comandam empresas e governos. E aí? Dá pra governar um país sem ser prática? Opa, deve ser por isso que dizem que, na verdade, quem governa são os maridos (era o que diziam de Hillary, caso ela ganhasse).

Também temos de pensar: por que as mulheres demoram demais para escolher o que vão vestir? Será que é porque somos automaticamente julgadas pela aparência, como se as roupas dissessem mais do que o que sai da nossa boca? Com um decote assim ou uma saia assado, num piscar de olhos viramos 'putas' ou 'santas' ou 'lésbicas' ou 'masculinizadas demais'. Por causa da roupa que usamos, dizem que estamos 'provocando' quem nos estupra. Por causa da roupa, tem gente que não nos leva a sério. Fica mesmo difícil se vestir num mundo assim.

Coisas desse tipo acontecem todo dia e a mulherada finge que não vê. Ou se não finge, acha graça, faz piada e concorda.

Esses dias recebemos em casa minha tia e meu tio. Estávamos todos conversando quando surgiu o assunto da 'Sra.' Obama. Meu pai começou a falar sobre seu estilo, roupa e blábláblá. E eu comentei sobre ela não ser somente a Sra. Obama. Ela tem um nome, Michelle, um curriculum impressionante e as pessoas a tratam como se ela fosse um bibelô, um enfeite. Porra, a mulher estudou em Princeton e Harvard — nesta última, formou-se em direito summa cum laude, babe. Ela foi tutora do Obama, quando ele era estagiário, e tem um extenso e bem-sucedido currículo. Ela não é um bibelô. Não é um enfeite. É uma pessoa inteligente, com experiência e muito a dizer. Debaixo do penteado a la Jackie-O, meus queridos, existe um cérebro. Gostaria que isso fosse ao menos mencionado.
O que aconteceu comigo foi que, eu simplesmente fui ignorada, disseram que eu estava 'errada' e finish. Mudaram de assunto ...

Ontem mesmo saí para beber com uns amigos. No decorrer da bebedeira, meu namorado aproveitou para comentar o caso acima (discussão sobre Sra. Obama que ocorreu na minha casa), logo começaram a fazer piadinhas (diga-se de passagem, bem sem graça) sobre o caso. Eu comecei a falar que acho errado como nos diminuem a nada, como esse tipo de piada acentua o preconceito. Assim puxei corda para a violência doméstica e acabei comentando sobre a Catarina (personagem interpretado por Lilia Cabral na novela A Favorita, que apanhava do marido), em seguida uma grande amiga (sim, amigA, logo ela é MULHER), soltou uma piadinha: 'Olha só, tem uma frase do Leo (personagem de Jackson Antunes, marido que batia em Catarina) que eu colocaria até no meu orkut, pra zuar, mas é o máximo, 'mulher é que nem mosquito, só sossega no tapa', nessa hora TODOS na mesa começaram a rir (inclusive o meu namorado), quer dizer, ela como mulher, me solta uma piada ridícula com teor de violência gigantesca e acha engraçado.
Óbvio que minha reação não foi nada agradável, então, eu, séria (e puta da vida!) disse: 'Aham. Não acho nada engraçado', e todos continuaram a rir, como se me deixar daquele jeito, como se levar esse tipo de discussão pra esse lado da piada fosse realmente engraçado ou normal. Me desculpe mas esses assuntos NÃO são engraçados, são sérios e não deviam levar pra esse lado. Nem numa mesa de bar, com seus amigos (talvez justamente por você estar com seus amigos eles realmente não deveriam fazer isso), achei melhor nem começar a discutir porque, se eu falasse tudo que me veio à mente, eu certamente perderia uma amiga e levantaria da mesa mandando todos pro inferno. Mas pelo menos eu deixei claro que não gostei deste tipo de comentário. Mas não adiantou, todos começaram a falar besteiras e euu fui tachada de feminista e brava. Vai entender, né?
Quer dizer que se a sua mãe apanhasse do seu pai, se sua tia fosse estuprada, se sua filha andasse nas ruas e fosse obrigada a ouvir palavreados como: 'sua gostosa', 'me dá uma chupadinha' (no caso dos sorvetes), 'quero te comer, morena', você acharia engraçado? Faria piadinhas sobre o assunto?!

Olha, entendo que os meus amigos estavam apenas fazendo piada e que, muito provavelmente, se opõem à violência doméstica. Mas, queridos, entendam de uma vez por todas: essas piadas não têm graça. Elas são ofensivas. Não só fazem com que eu (que sou mulher) me sinta desconfortável, como dão uma colher de chá para a violência. Se você condena a violência doméstica, então não faça piada. Porque não é uma piada. É o que acontece na vida de muitas pessoas, todos os dias.

Eu nunca vejo ninguém ousar dizer que os negros gostam de ser discriminados ou que os gays gostam de apanhar dos pit boys por aí. Mas, com a mulher, sempre há alguém querendo dizer que a gente gosta disto. Quantas vezes você já ouviu que é dos cafajestes que a gente gosta? Ou, para citar uma frase do Nelson Rodrigues, “ele bate, mas bate no que é dele” (olha aí a idéia de mulher como coisa, como propriedade!). Ninguém gosta de ser agredido. Somos seres humanos e a violência não se justifica nunca. Nem em piada. Fazer piada com isso só tem graça para você, homem privilegiado, que não tem de passar por isso. O único objetivo deste tipo de “piada” é reforçar o privilégio masculino na sociedade.

Então, puta merda, parem de acreditar nessas generalizações ridículas, meninas. Isso só prejudica vocês.

7 comentários:

Leo disse...

Ok, entendo que ontem o papo estava no clima de brincadeira, mas levantar bandeiras é complicado.

Eu concordo com você que esse tipo de brincadeira não deve ser aceita - ou qualquer outra que você se sentir ofendida - mas a discussão começou por causa da Michele, que por força do destino é mulher do Obama.

Acredito que o problema não está na Michele em si, já que a sociedade inteira está impregnada com a miopía da "beleza ideal". E dentro dessa bolha estão mulheres e homens. É claro que ela é inteligente e tem os seus méritos, mas quem se importa com isso hoje em dia? É muito mais importante ser bem visto pelos amigos - aquele que usa roupas de marcas, está sempre nos melhores lugares - do que qualquer outra coisa. E isso, é claro, influência também no comportamento das mulheres: a preocupação em estar bem arrumada, cabelo, unha, maquiagem, etc.

Eu não vejo problema em fazer piadas - de negros, mulheres, gays, japoneses. O problema verdadeiro é quando essa piada ganha um carater pejorativo. Aí, sim, tem problema. Porque já não é mais piada e entramos no campo da discriminação, que por sinal, as mulheres em nosso país sofrem bastante - é só comparar um salário de uma mulher e um homem.

.LukitchaS. disse...

...deculpa mas, por mais que queiramos encarar esse "tipo de piada" como apenas por diversão, para rir, elas sempre se referem à aversão às diferenças ou pela zombaria de estereótipos, e querendo ou nao elas acabam, por consciência,ou não, a incentivar o vulgar e o DESRESPEITO, favorecendo SIM ao PRECONCEITO, seja ele qual for, e em qual nível for: social, sexual, étnico e por aí vai ! NÃO a PIADAS contra minorias !

NATALIA disse...

É Mila, se eu tb servi de inspiração, obrigada.

É um despeito tripudiar em cima de mulheres, estas que amamentam, que nos ensinam a andar, que sobem no salto para ir trabalhar e ganhar o seu espaço no mundo.

Seja ela doméstica, ou não, merece o respeito de quem quer que seja.

Imbecilidade a parte, as pessoas costumam achar que piadas não são nada demais, pequenas bobagens. São nelas que encontramos a verdade que não quer ser dita com seriedade.

E para aqueles que acharam tanta graça ao rebaixar uma mulher, a uma posição que NÃO NOS PERTENCE, só me resta dizer que "quem acha tudo gozado em tudo é faixineiro de motel"!!

bye bye..

amei *-*

NATALIA disse...

A proposito...

só não vale qdo ganha tom pejorativo?

Toda brincadeira no fundo tem o seu lado de verdade...

Uma piada só serve para mascarar algum indício de preconceito, seja ele qual for!!

Leo disse...

Mas o preconceito não é uma coisa normal? Aquele primeiro julgamento, primeira impressão que fazemos das pessoas?

Imagine que conheço uma família de Bangladesh e eles me convidam para um almoço em sua casa para comer a comida típica daquele país. Eu nunca comi a comida típica de Bangladesh. Não gosto, deve ser nojenta e, por essa razão, eu não vou. Isso é preconceito. Há algum problema com isso?

A mesma coisa acontece com as crianças: eu não vou tomar água nesse copo porque é verde. Sei lá, cor feia. Palmeiras. Arghhh!

E, sim, Natália, eu concordo com você. Rebaixar as mulheres ou outras pessoas, como os faxineiros que "acham tudo gozado", por qualquer razão que seja, entra no rol de coisas com tom pejorativo.

Mas aí a gente está mudando o foco da conversa e o texto não é sobre isso ;)

Luiz Gustavo ( Guga ) disse...

parabéns mais uma vez vez por suas grandes palavras!!!
Nossa vc é muito boa com elas!!
ahah e sei q seu nome é milena, pois sou amigo do bruno aki do rj!!

parabéns e continue sempre escrevendo!

disse...

Hahahahaha!
Tá póp hein, meu?!


[causadora]
;-p