17.3.09

.das coisas dos outros que parecem nossas.

Life's a bitch. - por Tatiana Pinheiro

- Tatiana, você precisa estudar minha filha. Estudar para passar em algum concurso. Preciso morrer tranquila. Você precisa de um bom emprego.

- Mãe, eu não vou estudar para passar em concurso público. Demorei muito tempo para assumir que o que eu realmente amo e quero para a minha vida é escrever. Eu sei que eu cogitei a diplomacia, mas isso foi numa época em que eu não acreditava mais no amor, nas pessoas, em nada. Pouco me importava sumir pelo mundo sozinha. Eu já era completamente sozinha. E não adianta vir com esse seu blá-blá-blá de que eu sou uma idiota, que esse é só mais um namorico qualquer – não gaste o seu latim. Você pode estar certa, mas acho que chega uma época que a gente não aguenta mais tanto egoísmo. Exigir tanto dos outros. Mais um rompimento sem razão, sem sentido. Observar como as pessoas passam de tudo na sua vida para absolutamente nada. Mais uma lovestory perdida. Aquele ciclo maldito. Encher a cara, sexo casual, esquecer do único, da única coisa que importa. Sentir-se completamente vazia. E depois de meses, anos de completa solidão, de completo vazio sair procurando. O único. Um novo amor. Jurar que é para sempre. E não ser.


Mãe, chega uma hora que tem que ser. E é.


- E você acha realmente que agora é?

- A única coisa que eu acho é que eu não aguento mais um. Rompimento. Não aguento mais um rompimento amoroso. Não aguento mais um rompimento comigo mesma. Não aguento mais achar que eu sirvo para alguma coisa para depois perceber que não, que não é dessa forma que eu quero passar o resto da minha vida. Já me questionei demais até saber que o único sentido da minha vida é amar. Eu amo um cara. Ele me ama. Eu amo escrever e as palavras me amam. Isso é tudo que importa.

- Mas os escritores levam isso como um hobbie. Eles têm outras profissões.

- Ahn..quais?

- Não sei, mas quase todos eles têm.

- Bom, eu não sei do que você está falando. Li uma entrevista do Tezza dizendo que até ele ganhar uma grana com a literatura, ele era sustentado pela mulher. O Caio Fernando Abreu até escrevia em jornais, traduzia e tal, mas não acho que isso fuja muito da profissão dele. O Henry Miller largou tudo e foi escrever com seus trinta e poucos anos de idade. Os beats, bem como o Bukowski até tinham alguns sub-empregos, mas isso é muito diferente de vender a alma. Se um dia eu estiver passando fome, provavelmente vou arrumar algum emprego do tipo. Mas isso é muito diferente de passar a vida atrás de uma mesa, como juíza por exemplo, tentando escrever nas poucas horas vagas que me sobram. Além do que, sobre o que eu poderia escrever? Romances policiais?

- (Perdendo a paciência...) E você vai fazer o quê? Ser puta igual a sua amiga?

- A vida é uma puta. Ela não é puta.

- Ela mostra o corpo.

- Os índios também mostram o corpo.

- Os índios não fazem obscenidades.

- Nem ela. Ela dança.

- Então!

- Os índios também dançam...

- Não tem comparação Tatiana! Imagina o mal que ela faz para estes homens!

- Malllllll? Mostrando o corpo?????? Mãe, não dá pra conversar.

- O que não dá é você achar tão normal vender o corpo.

- Mãe, o que não dá é você achar que vender a alma tudo bem, mas o corpo não...

2 comentários:

Tatiana Pinheiro. disse...

=D

Como se nós tivéssemos culpa de sermos mimadas, né? hahaha

;** beijos dear

disse...

parece com você mesmo.
;-)

é bom quando a gente vê que cada vez mais, mais pessoas enxergam suas próprias verdades.

beijo, Margarida.