15.5.09

.eu sou, eu sou, eu sou.

(...) se sentia de propósito culpada e rezava mecanicamente três ave-marias, amém, amém, amém. Rezava mas sem Deus, ela não sabia quem era Ele e portanto Ele não existia.

(...) Dava-se melhor com um irreal cotidiano, vivia em câmera leeeenta, lebre puuuuuulando no aaaar sobre os ooooooouteiros, o vago era o seu mundo terrestre, o vago era o de dentro da natureza.

E achava bom ficar triste. Não desesperada, pois isso nunca ficara já que era tão modesta e simples mas aquela coisa indefinível como se ela fosse romântica. Claro que era neurótica, não há sequer necessidade de dizer. Era uma neurose que a sustentava, meu Deus, pelo menos isso: muletas. Vez por outra ia para a Zona Sul e ficava olhando as vitrines faiscantes de jóias e roupas acetinadas - só para se mortificar um pouco. É que ela sentia falta de encontrar-se consigo mesma e sofrer um pouco, é um encontro.

Clarice Lispector - A Hora da Estrela, porque as vezes a gente se sente meio Macabéa e por vezes se sente Rodrigo. Porque quase sempre a gente escreve pra ser compreendido. Porque as vezes só quando 'morremos' percebemos que estamos vivos. Porque as vezes a morte é a hora da estrela. E porque quase sempre sentimos que não há tanto lugar no espaço para acolher estrelas como essas.

2 comentários:

disse...

Eu fiquei com saudade da arte.
Com saudade do que sinto quando vou ao teatro, com saudade do que sinto quando leio Clarice ou Rilke...

Com saudade dos meus suspiros silenciosos de encontro e compreensão.

Alberto Pereira Jr. disse...

ai gente. Clarice é a porta-voz de nossas almas