15.10.13

.das coisas que não são mas são.

"escritora?", disse ele com um sorriso irônico. "escritores escrevem, não? e você não faz isso", essa parte ele não disse, mas foi o que o sorriso significou. era tão mais bonito quando os lábios sorriam de outra forma. sorriam porque amava e não porque sofria.

sim, é possível sofrer sorrindo.
é possível chorar de imensa alegria.

é possível evitar conversas porque elas são demasiadamente complicadas.
é engraçado como a gente luta tanto e tenta encarar as coisas com mais leveza, mas não enxerga que simplicidade não é evitar brigas ou sofrimento. simplicidade é aceitar, compreender, respeitar, entender a necessidade um do outro. o resto... o resto é fuga.

evitar olhar no olho é evitar amar de peito aberto.

e isso, isso eu não quero mais.

11.10.13

.das noites com pés gelados.


Tava frio pra caralho aquele dia. Daqueles que racham a pele mesmo, e quem anda na Avenida Paulista em dias assim ou anda apressado procurando por abrigo ou porque busca a transformação da dor em algo mais físico. E doeu. 

Andar na Paulista em dias assim me lembram ele. E como sua presença me protegia de certa forma, mesmo que não estivéssemos abraçados ou de mãos dadas. 

As vezes, logo após a despedida, sentia uma vontade imensa de ligar pra ele e falar sobre como os casais parecem estranhos quando estão numa mesa de bar, como as pessoas só sabem falar sobre seus trabalhos e como a cidade fica linda quando está vazia. Mas nunca o fiz. Simplesmente porque não sou esse tipo de pessoa. A que liga após um encontro. 

Sei lá, sabe? Cada um leva a vida do jeito que escolheu levar. Não é o que dizem por aí: "a vida é feita de escolhas, saiba conviver com elas"? Pois é. Cada cabeça sua sentença e a minha tá empacada nesta parte em que resolvi jogar de um jeito meio torto, louco e estranho de ficar presa no próprio jogo,  escolher os docinhos errados pra implodir e na hora errada resolver deletar essa merda toda porque "não tem jeito mesmo!".

Eu sempre faço isso e volto a baixar o joguinho de novo. Não vou poder reclamar se por acaso acabar sozinha e pedindo ajuda para os amigos a ~passar de fase~. 

Mas me diz uma coisa, quem me garante que eu poderia  estar melhor? A gente leva a vida que escolheu e ninguém vai me ver responsabilizando ninguém por isso. Porque, meus amigos, agora eu vou deitar nesta minha cama de solteira sozinha, ajeitar meu travesseiro e zapear por todos os canais da minha tv até pegar no sono. Portanto repito, quem me garante que eu podia estar melhor? Então, boa noite!


27.9.13

.dos prazeres do nada.

Meu quarto. A melhor coisa que havia ali era a cama. Gostava de ficar ali deitado por horas, mesmo durante o dia, com as cobertas puxadas até o queixo. Era bom ficar ali, nada acontecia por ali, nenhuma pessoa, nada.

— Charles Bukowski.   


17.9.13

.dos projetos que inspiram.

"todo mundo querendo se superar. pra quê se superar? por que eu tenho que correr mais rápido?"


.o que é tristeza pra você?.

13.7.13

.eu celebro o eu, num canto de mim mesmo.

"Alguns beijos leves, alguns abraços, um afago dos braços, o jogo de luz e sombras nas árvores quando os maleáveis galhos balançam, o prazer de estar sozinho ou na pressa das ruas, ou entre os campos e encostas de colinas, a sensação de estar saudável, a vibração do meio dia, o canto sobre mim se levantando da cama e encontrando-se com o sol. 

Já considerou mil acres o suficiente? Já considerou a Terra o suficiente? Já praticou o bastante para aprender a escrever? Já se sentiu orgulhoso de entender poemas? Pare esse dia e noite comigo e você possuirá a origem de todos os poemas, você possuirá o bem da Terra e do Sol (há milhões de sóis restantes), você não mais tomará as coisas de segunda ou terceira mão, ou olhar nos olhos dos mortos, ou alimentar-se dos espectos nos livros, você não mais olhará nos meus olhos também, ou tomar coisas minhas, você ouvirá todos os lados e filtrá-los por conta própria. 

Eu ouvi o que os falantes falavam, a conversa do princípio ao fim, mas eu não falo do princípio ou do fim. Nunca houve mais incepção do que há agora, ou mais juventude ou velhice do que há agora, e nunca haverá mais perfeição do que há agora, ou mais paraíso ou inferno do que há agora. 

Impulso, impulso e impulso, sempre o impulso procriador do mundo. Do oposto escuro, iguais avançam sempre substância e aumento, sempre um elo de identidade, sempre distinção, sempre uma criação de vida.

Elaborar não é uma vantagem, sentimentos aprendidos e desaprendidos é que são. Certo como a mais completa certeza, prumo na vertical, bem guiado, acolhido nos raios. Forte como um cavalo, aficcionado, desdenhoso, elétrico, aqui estamos eu e esse mistério. 

Limpa e doce é minha alma, e limpo e doce é tudo que não é minha alma.

Se falta um, falta o outro, e o não visto é provado pelo visto, até que isso se torne não visto e receba sua prova, em contrapartida. Mostrar o melhor e dividí-lo do pior, idades irritando idades, conhecer o encaixe perfeito e a igualdade das coisas, enquanto eles discutem estou calado, e banho-me e me admiro.

Bem vindo é qualquer órgão e atributo meu, e de qualquer homem jovial e limpo. Nem uma polegada e nem uma partícula de uma polegada é má, e nenhuma deve ser menos familiar que o resto.

Estou satisfeito - Eu vejo, danço, rio e canto; enquanto Deus vem como o amado companheiro de cama que dorme do meu lado toda noite, e sai ao raiar do dia, deixando-me cestas cheias de toalhas brancas, enchendo a casa com sua fartura. Deverei odiar minha aceitação e descoberta e grito aos meus olhos, que eles desviam do olhar depois e mais embaixo da estrada, e imediatamente cifram e me mostram uma moeda,  exatamente o valor de um e exatamente o valor de dois, e qual estará à frente? 

Viajantes e questionadores me abordam, pessoas que conheço, o efeito sobre mim da minha tenra idade ou do bairro e da cidade em que vivo, ou a nação, as mais recentes notícias, descobertas, invenções, sociedades, autores velhos e novos, meu jantar, roupa, sócios, aparências, negócios, cumprimentos, débitos, a indiferença real ou buscada de algum homem ou mulher que eu amo, a doença de um dos meus amigos ou minha, ou maus tratos, ou perda ou falta de dinheiro, ou depressões ou exaltações, esses vêm a mim em dias e noites, e vão de novo, mas eles não são o meu eu mesmo.

Separado das pressões e trações está o que sou, está entretido, complacente, compadecente, ausente, unitário. Olha para baixo, está ereto, dobra um braço num impalpável descanso certeiro, olha com a cabeça curvada para o lado, curioso do que acontecerá em seguida, ao mesmo tempo dentro e fora do jogo e olhando-o e se maravilhando com ele. 

Voltando atrás eu vejo em meus próprios dias em que eu suei pelo nevoeiro com liguistas e contensores, não tenho piadas ou argumentos, eu testemunho e espero. Eu acredito em ti, minha alma, à outra não devo depreciar você e você não deve ser depreciada à outra. Relaxa-se comigo na grama, solte o nó na sua garganta, não são palavras, músicas ou ritmo que quero, nem costumes ou lições, nem mesmo as melhores, apenas o canto eu quero, o murmurar de sua voz arfada. 

Lembro-me de quando nos deitamos numa manhã transparente de verão, você colou sua cabeça na direção contrária aos meus quadris e gentilmente se virou contra mim e rasgou a camisa dos meus ossos do peito, e colo a língua em meu coração recém-desnudo, e subiu até sentir minha barba e desceu até segurar meus pés. Rapidamente subiu e me envolveu na paz e sabedoria que passa toda a arte e os argumentos da Terra..."

Folhas de Relva - Canção de Mim Mesmo, de Walt Whitman.




21.3.13

.das crônicas que escrevo enquanto mentalizo encontros casuais das músicas que escuto.

Vi você dançando na minha frente. Na verdade vi você chegando. Senti teu cheiro, tua presença marcante de quem chega querendo algo, buscando sabor da vida, do quente e gelado.

Entre uma música e outra senti teu olhar penetrar o meu. Ardeu. Foi foda.

A noite era fria e você estava lindo de roupa de gente normal, que quer parecer interessante e legal. Você é assim. Meio blasé, meio "olhar de canto de olho", pra ver se alguém te observa, como se tivesse culpa do mundo ser como é. Como se tivesse culpa de ser o que é, de sentir o que sente.

A música piorou tudo.

Você é desses que se apaixona pela condição de não pertencer a nada e nada ter a que pertença.

Eu te vi. E te desejei. Também sei que me viu. E quis me sentir. Mais uma vez.
Tirei sua roupa assim que te olhei. Transei com você ali mesmo, parado bem na minha frente...

"Dançando na minha frente, sinto sua respiração, o brilho de suas águas escorrega nas minhas mãos..."

Quando olhei pra trás, a madrugada era triste. E assim foi embora.