13.7.13

.eu celebro o eu, num canto de mim mesmo.

"Alguns beijos leves, alguns abraços, um afago dos braços, o jogo de luz e sombras nas árvores quando os maleáveis galhos balançam, o prazer de estar sozinho ou na pressa das ruas, ou entre os campos e encostas de colinas, a sensação de estar saudável, a vibração do meio dia, o canto sobre mim se levantando da cama e encontrando-se com o sol. 

Já considerou mil acres o suficiente? Já considerou a Terra o suficiente? Já praticou o bastante para aprender a escrever? Já se sentiu orgulhoso de entender poemas? Pare esse dia e noite comigo e você possuirá a origem de todos os poemas, você possuirá o bem da Terra e do Sol (há milhões de sóis restantes), você não mais tomará as coisas de segunda ou terceira mão, ou olhar nos olhos dos mortos, ou alimentar-se dos espectos nos livros, você não mais olhará nos meus olhos também, ou tomar coisas minhas, você ouvirá todos os lados e filtrá-los por conta própria. 

Eu ouvi o que os falantes falavam, a conversa do princípio ao fim, mas eu não falo do princípio ou do fim. Nunca houve mais incepção do que há agora, ou mais juventude ou velhice do que há agora, e nunca haverá mais perfeição do que há agora, ou mais paraíso ou inferno do que há agora. 

Impulso, impulso e impulso, sempre o impulso procriador do mundo. Do oposto escuro, iguais avançam sempre substância e aumento, sempre um elo de identidade, sempre distinção, sempre uma criação de vida.

Elaborar não é uma vantagem, sentimentos aprendidos e desaprendidos é que são. Certo como a mais completa certeza, prumo na vertical, bem guiado, acolhido nos raios. Forte como um cavalo, aficcionado, desdenhoso, elétrico, aqui estamos eu e esse mistério. 

Limpa e doce é minha alma, e limpo e doce é tudo que não é minha alma.

Se falta um, falta o outro, e o não visto é provado pelo visto, até que isso se torne não visto e receba sua prova, em contrapartida. Mostrar o melhor e dividí-lo do pior, idades irritando idades, conhecer o encaixe perfeito e a igualdade das coisas, enquanto eles discutem estou calado, e banho-me e me admiro.

Bem vindo é qualquer órgão e atributo meu, e de qualquer homem jovial e limpo. Nem uma polegada e nem uma partícula de uma polegada é má, e nenhuma deve ser menos familiar que o resto.

Estou satisfeito - Eu vejo, danço, rio e canto; enquanto Deus vem como o amado companheiro de cama que dorme do meu lado toda noite, e sai ao raiar do dia, deixando-me cestas cheias de toalhas brancas, enchendo a casa com sua fartura. Deverei odiar minha aceitação e descoberta e grito aos meus olhos, que eles desviam do olhar depois e mais embaixo da estrada, e imediatamente cifram e me mostram uma moeda,  exatamente o valor de um e exatamente o valor de dois, e qual estará à frente? 

Viajantes e questionadores me abordam, pessoas que conheço, o efeito sobre mim da minha tenra idade ou do bairro e da cidade em que vivo, ou a nação, as mais recentes notícias, descobertas, invenções, sociedades, autores velhos e novos, meu jantar, roupa, sócios, aparências, negócios, cumprimentos, débitos, a indiferença real ou buscada de algum homem ou mulher que eu amo, a doença de um dos meus amigos ou minha, ou maus tratos, ou perda ou falta de dinheiro, ou depressões ou exaltações, esses vêm a mim em dias e noites, e vão de novo, mas eles não são o meu eu mesmo.

Separado das pressões e trações está o que sou, está entretido, complacente, compadecente, ausente, unitário. Olha para baixo, está ereto, dobra um braço num impalpável descanso certeiro, olha com a cabeça curvada para o lado, curioso do que acontecerá em seguida, ao mesmo tempo dentro e fora do jogo e olhando-o e se maravilhando com ele. 

Voltando atrás eu vejo em meus próprios dias em que eu suei pelo nevoeiro com liguistas e contensores, não tenho piadas ou argumentos, eu testemunho e espero. Eu acredito em ti, minha alma, à outra não devo depreciar você e você não deve ser depreciada à outra. Relaxa-se comigo na grama, solte o nó na sua garganta, não são palavras, músicas ou ritmo que quero, nem costumes ou lições, nem mesmo as melhores, apenas o canto eu quero, o murmurar de sua voz arfada. 

Lembro-me de quando nos deitamos numa manhã transparente de verão, você colou sua cabeça na direção contrária aos meus quadris e gentilmente se virou contra mim e rasgou a camisa dos meus ossos do peito, e colo a língua em meu coração recém-desnudo, e subiu até sentir minha barba e desceu até segurar meus pés. Rapidamente subiu e me envolveu na paz e sabedoria que passa toda a arte e os argumentos da Terra..."

Folhas de Relva - Canção de Mim Mesmo, de Walt Whitman.